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Ave, planeta água!

Escolas rurais de Minas Gerais transformam a preservação ambiental em experiência cotidiana. Brasil ainda tem 6 mil escolas sem saneamento básico e déficit estrutural afeta frequência e desempenho escolar.

Entre montanhas e chapadões, Minas Gerais guarda nascentes que desenham o mapa das águas brasileiras. São elas que dão origem a bacias como a do São Francisco, a do Rio Doce e a do Jequitinhonha, rios que ultrapassam divisas e marcam culturas. Em meio a geografia tão generosa, contudo, emerge o desafio: como toda essa riqueza hídrica encontra caminho até as escolas mineiras? 

O estado é o quarto maior em extensão territorial no Brasil, com 586.528 km², e suas bacias hidrográficas correspondem a cerca de 3,5% da água disponível no País. No entanto, isso não significa que o acesso à água tratada e ao saneamento seja uma realidade para todos. De acordo com o diagnóstico de Infraestrutura Escolar de 2024, do Ministério da Educação, das 3.954 escolas da rede de ensino estadual mineira, mais de 500 escolas ainda funcionam sem água tratada ou rede de esgoto, com necessidade de fossas rudimentares para os descartes de dejetos.

A divulgação motivou um estudo da Associação dos Membros dos Tribunais de Contas do Brasil (Atricon) que mobilizou dos tribunais de todo o País para um diagnóstico diretamente nas escolas. As visitas foram feitas no primeiro semestre deste ano e encontraram pelo menos 647 mil estudantes matriculados em escolas públicas municipais, estaduais e federais que não têm água potável, 179 mil sem abastecimento de água, 357 mil sem esgoto tratado e 347 mil sem banheiros.

Em Minas Gerais, o grupo visitou 89 escolas das quais cerca de 58% não tinha acesso a água potável e 43% não contavam com coleta de esgoto adequada, o que submete esses estudantes ao risco do atraso escolar e ao abandono. 

De acordo com o estudo Futuro em risco: os impactos da falta de saneamento para grávidas, crianças e adolescentes, do Instituto Trata Brasil, alunos sem saneamento básico apresentam atraso escolar médio de 1,8 ano em comparação aos estudantes com acesso ao básico. O dado foi obtido cruzando as informações do Censo Escolar acerca de acesso ao saneamento e defasagem escolar.  
 

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A leitura da tabela indica que em Minas Gerais, onde apenas 83,8% das escolas têm acesso a água tratada e 76,2% a esgoto coletado, quase a metade das crianças (42,8%) apresentam algum atraso escolar. Para Vanessa Barbosa da Silva, especialista em Educação Ambiental, “o Brasil ainda precisa fortalecer a execução do novo Marco Legal de Saneamento Básico, que exige a universalização do acesso a esses serviços. É necessário investimento financeiro consistente, com a ampliação de recursos dentro do programa Dinheiro Direto na Escola (PDDE) para custear obras emergenciais de saneamento”. 
 
Escolas rurais se mobilizam para enfrentar desafios de acesso à água e ao saneamento nas escolas rurais 
 
De acordo com o Censo Escolar, Minas Gerais tem 12.776 escolas municipais, das quais 2.539 se localizam em áreas rurais. São justamente essas escolas as mais impactadas pela falta de saneamento básico e, nelas, a articulação dos professores e a proximidade com a comunidade pode ser o segredo para a conquista dos direitos. 
 
Foi o que ocorreu na Escola Municipal Professora Maria Leandra “Dona Cota”, nome que tem mais letras do que número de estudantes. São apenas 28, atendidos por um grupo de 12 docentes que se deslocam até uma hora, na kombi fornecida pela Prefeitura de Ouro Preto, para chegar à comunidade distante quase 35 quilômetros da cidade. 

 
Criada na década de 1960 como um grupo escolar, a unidade foi fechada no início dos anos 2000, quando os alunos passaram a ser transportados para a escola do distrito mais próximo, Santa Rita de Ouro Preto. Na pandemia, a prefeitura decidiu descentralizar novamente as escolas, e a “Dona Cota” surgiu para que pré-adolescentes não precisassem mais deixar suas comunidades para estudar. Mas a escola nasceu sem uma caixa d´água própria, partilhando a captação de água de minas próximas com os outros poucos imóveis da região.  
 
“Fizemos a reivindicação, conseguimos a caixa d´água própria, mas faltava proteger o entorno do curso d'água para evitar que animais sujassem e contaminar a água. Conseguimos cercar o trajeto da nossa água, que agora é adequada ao nosso consumo, ainda que não tratada porque vem diretamente da mina”, explica a diretora, Lezir Aparecida Jacinto. 
 
Depois, foi a vez de reivindicar não apenas para a escola, mas para toda a comunidade de pouco mais de 300 habitantes, a coleta de lixo, uma das ações de sustentabilidade promovidas pela escola. “A gente explica para os alunos a importância de colher o lixo, de não pôr fogo nos rejeitos porque isso contamina a terra, polui o ambiente. Para ensinarmos isso, é preciso ter condições de que os moradores possam fazer a dispensação correta. A comunidade conseguiu a coleta uma vez por semana, estamos reforçando com as crianças para que elas ajudem a formar, em casa, uma nova cultura ”, explica a professora de Geografia, Suely Pereira.  
 
Agora, a batalha é para manter limpo o lençol freático do qual emergem todas as minas e bicas que atendem as casas. Em crescimento, a comunidade está habituada a usar as chamadas fossas negras – sistema formado por um buraco cavado no solo, para onde o esgoto é direcionado. “Para reduzir o mau cheiro, a população local usa cal, mas o líquido que escorre contamina o lençol freático. Quanto mais moradores, mais poluído fica. Já a fossa séptica funciona de modo diferente: o esgoto passa por etapas de decantação, em tanques. Camadas de britas, carvão e areia ajudam a filtrar a água. A água resultante desse processo não é própria para consumo, mas pode ser reaproveitada em atividades simples do dia a dia, como a irrigação de jardins e áreas verdes - e não contamina o solo”, continua Suely.  

Confira a reportagem na íntegra!

 
Aprendizado que corre o caminho das águas 
 

Foi nesse necessário de estar em um local de natureza preservada, mas de ameaça clara, que a escola criou o projeto “Caminho das águas” para aprender a cuidar de sua redondeza descobrindo a importância de outra bacia: a do Rio das Velhas. . Ciências, geografia, educação física e outras disciplinas se voltam à importância ambiental, histórica e social do rio mineiro, a partir de visitas às comunidades ribeirinhas. Além disso, a ideia é fazer com que os alunos compreendam a relevância do rio para o ecossistema e a população das localidades. 

Até setembro de 2025, os alunos da Escola Dona Cota haviam realizado três visitas ao longo do percurso do Rio das Velhas. A primeira foi ao Parque Natural Municipal das Andorinhas Horto dos Contos, em Ouro Preto, e abordou a nascente do rio e a preservação ambiental. A segunda se deu em Acuruí, distrito da cidade de Itabirito; a terceira, no Parque Estadual do Sumidouro, em Lagoa Santa. Por fim, está prevista, para outubro deste ano, uma ida à Barra do Guaicuy, distrito de Várzea da Palma.  

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Legenda: Entre brincadeiras e descobertas, estudantes do campo convivem com o Ribeirão Pirapetinga, que sustenta a comunidade. (Foto: Maria Rita Aquino) 

“Nosso objetivo, com o projeto, é conscientizar a todos sobre o uso da água e, ao mesmo tempo, garantir acesso à informação e ao conhecimento. Como são estudantes da zona rural, buscamos ampliar sua visão de mundo”, destaca Lezir Aparecida Jacinto, diretora da instituição. 

Aos estudantes, o projeto proporcionou novos aprendizados. “A água preservada é muito importante para nossa saúde, para os animais e para que evitemos doenças”, afirma Luana Vitória Martins, de 11 anos. Já para Thiago Barbosa dos Anjos, de 12, “preservar a água da região é importante porque ela também vai para Belo Horizonte, São Francisco e outros lugares”. Durante os passeios, ele também observou que os rios da capital mineira sofrem com a poluição causada pelo descarte de plásticos nas águas. “Acho uma pouca vergonha”, critica. 
 
Comunidade preservada atenta às mudanças climáticas globais 

O caminho até a Escola Municipal Aleijadinho, em Santo Antônio do Salto, distante 25 quilômetros de Ouro Preto, é um deleite. Rodeada por vegetação e agraciada pelo Rio Mainart, a escola é um oásis, mas os professores sabem que é preciso despertar nos estudantes a preocupação com a preservação do seu espaço e do planeta. Por isso, os alunos organizaram uma feira de ciências, com o tema “Mudanças Climáticas Globais”. O projeto pretende promover a compreensão crítica das causas, dos efeitos e das possíveis soluções para as mudanças climáticas, além de incentivar os estudantes a se tornarem agentes de transformação em suas comunidades. 

De acordo com a diretora Márcia Antônia de Souza, durante os passeios realizados por áreas urbanas para a realização do projeto, os estudantes puderam perceber as diferenças em relação às suas próprias regiões: “Quando a escola faz uma visita técnica, os estudantes percebem que o ar de Salto é mais puro, que seu verde é mais intenso do que na cidade”, destaca. Segundo ela, essas experiências incentivam os alunos a se manterem engajados na preservação ambiental. 

Políticas, educação e consciência ambiental 

Iniciativas escolares, a exemplo do projeto “Caminho das águas” e da feira de ciência, mostram que a educação pode transformar a relação das comunidades com o meio ambiente. Para João Henrique Rettore Totaro, geólogo e professor de geografia da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas), ações como essas só ganham força quando relacionadas a políticas públicas e a planejamento integrado.  
 
Segundo ele, a atuação do poder público não pode se limitar a soluções específicas. “É necessário desenvolver um trabalho coordenado, que envolva diferentes áreas do conhecimento e possa contribuir de forma efetiva, como as ciências ambientais, sociais e econômicas, dentre outras”, explica, ao reforçar que a atuação deve ocorrer em todas as esferas (municipal, estadual e federal), com planejamento estratégico de curto, médio e longo prazos. 

Para o pesquisador, a falta de recursos hídricos que afeta muitas escolas mineiras não é causada por limitações técnicas ou tecnológicas. O que existe, na verdade, são barreiras de gestão e de responsabilidade social. “Regiões com infraestrutura básica e precária, carregam estigmas sociais e culturais que dificultam o acesso a serviços essenciais”, alerta.  

Embora a ampliação do acesso à água e ao saneamento básico exija altos investimentos, o especialista analisa que o maior desafio não é a falta de dinheiro, mas, sobretudo, a prioridade política. “A destinação de recursos para determinadas regiões reflete escolhas que nem sempre são humanas ou humanitárias, mas, sobretudo, políticas”, afirma.  

Segundo o Painel de Saneamento Brasil 2023, Minas Gerais ainda tem mais de 3,7 milhões de pessoas sem acesso à água potável, correspondendo a 18,3% da população, e 5,2 milhões sem coleta de esgoto – cerca de 22,4% da população mineira.  
 
A Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa) é a maior empresa de saneamento do Estado, presente em 635 dos 853 municípios mineiros. De acordo com a Agência Minas, em março de 2025, o índice de cobertura para esgoto coletado e tratado da Copasa, em sua área de abrangência, registrou crescimento: 78,2% no primeiro trimestre de 2025 contra 77,3% em dezembro de 2024. O índice era de pouco mais de de 72% em 2020.  
 
Ainda de acordo com a Agência Minas “o foco da Copasa é expandir os investimentos para ampliar as redes de coleta e tratamento de esgoto, com o fim de atingir a universalização do serviço de esgotamento sanitário estabelecida pelo Novo Marco do Saneamento, ou seja, cobertura de 90% da população com coleta e tratamento até 2033”. 

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Legenda: Com criatividade e consciência ambiental, alunos desenvolvem projetos que refletem sobre a preservação do meio ambiente. (Foto: Maria Rita Aquino) 

A estatal afirma ter batido recorde de investimento em saneamento em 2024, com total de R$ 2 bilhões investidos para obras de ampliação e melhorias. Um exemplo é o programa “Gota d’água”, desenvolvido pelo governo de Minas, em parceria com a Copasa, que destinou cerca de R$ 7,5 milhões para perfuração de poços artesianos e distribuição de kits de potabilização. Mais de 55 mil estudantes, em 432 escolas da rede, espalhadas por 387 municípios, foram beneficiados. Esses casos demonstram que educação, engajamento social e investimentos em infraestrutura caminham lado a lado, de modo a gerar impactos positivos, tanto na comunidade quanto no meio ambiente. 

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Charlie Santos 

Emanuelle Calomeni 

Maria Rita Aquino 

Micaella Cruz 

Estudantes do curso de Jornalismo do UniBH.